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Ciência · Escolha forçada

Padrões de Autossabotagem: o crítico interior à luz da pesquisa

O modelo de sabotadores de Shirzad Chamine vem do coaching e não foi validado cientificamente. Mas a ideia central, a de um crítico interior, conversa com uma linha de pesquisa sólida sobre autocrítica.

De onde vem o modelo

Em 2012, o coach e executivo Shirzad Chamine publicou um livro descrevendo dez "sabotadores": padrões mentais automáticos que, segundo ele, atrapalham o desempenho e o bem-estar. O principal seria o Juiz, uma voz que critica a si mesmo, os outros e as circunstâncias. Os demais, como o Controlador, o Agradador e a Vítima, seriam estratégias que ajudaram na infância e se tornaram rígidas na vida adulta.

O modelo foi desenvolvido no contexto de coaching e treinamento corporativo, e não em pesquisa acadêmica. Não encontramos estudos revisados por pares que validem a estrutura de dez sabotadores ou o questionário associado.

O que a pesquisa diz sobre a autocrítica

A psicologia clínica estuda há décadas algo parecido com o Crítico Interno. Paul Gilbert e colegas mostraram que a autocrítica tem formas diferentes: uma voltada a se corrigir por se sentir inadequado e outra mais hostil, de desprezo por si mesmo, que se associa mais fortemente a sofrimento (Gilbert et al., 2004). Revisões sistemáticas indicam que a autocrítica é um fator de vulnerabilidade presente em vários problemas, como depressão, ansiedade e transtornos alimentares (Werner et al., 2019).

A pesquisa também aponta caminhos. A autocompaixão, isto é, tratar a si mesmo com a gentileza que se ofereceria a um amigo, tem medidas validadas (Neff, 2003) e se associa a menos sintomas de ansiedade e depressão (MacBeth & Gumley, 2012). Na terapia do esquema, o "modo crítico interno" é trabalhado de forma estruturada (Young, Klosko & Weishaar, 2003).

Paralelos, não equivalências

Os outros sabotadores lembram conceitos estudados, como necessidade excessiva de controle, tendência a agradar e ruminação, mas o modelo de Chamine não foi construído a partir dessa literatura. Usamos a linguagem dele porque ajuda a reconhecer padrões, sabendo que ela não equivale a construtos medidos cientificamente.

Limitações

Nem o modelo original nem o teste do Ethea foram validados empiricamente. O teste usa escolha forçada entre quatro padrões, então mostra qual você mais reconhece em si, e não a intensidade da sua autocrítica. Ele não identifica depressão, ansiedade ou qualquer transtorno. Se a voz crítica interior é intensa e constante, procure apoio profissional.

Como o Ethea adapta o modelo

A versão do Ethea usa quatro padrões centrais (Crítico Interno, Controle Excessivo, Impulso de Agradar e Vitimização) em 16 blocos de quatro frases; você marca a mais e a menos parecida com você, e cada padrão aparece 16 vezes. Os textos de resultado incorporam ideias da pesquisa sobre autocrítica e autocompaixão, com sugestões práticas e sem tom de culpa.

Teste criado por Giovanni Oliveira.

O Ethea não tem vínculo com Shirzad Chamine nem com a empresa que comercializa seu programa e questionário.

Referências

Links com DOI levam ao artigo original. Quando não indicamos um DOI, o link abre uma busca no Google Acadêmico.

  1. Chamine, S. (2012). Positive Intelligence: Why Only 20% of Teams and Individuals Achieve Their True Potential and How You Can Achieve Yours. Greenleaf Book Group. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  2. Gilbert, P., Clarke, M., Hempel, S., Miles, J. N. V., & Irons, C. (2004). Criticizing and reassuring oneself: An exploration of forms, styles and reasons in female students. British Journal of Clinical Psychology, 43(1), 31–50. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  3. Werner, A. M., Tibubos, A. N., Rohrmann, S., & Reiss, N. (2019). The clinical trait self-criticism and its relation to psychopathology: A systematic review – Update. Journal of Affective Disorders, 246, 530–547. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  4. Neff, K. D. (2003). The development and validation of a scale to measure self-compassion. Self and Identity, 2(3), 223–250. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  5. MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545–552. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  6. Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2003). Schema Therapy: A Practitioner's Guide. Guilford Press. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  7. Hicks, L. E. (1970). Some properties of ipsative, normative, and forced-choice normative measures. Psychological Bulletin, 74(3), 167–184. DOI: 10.1037/h0029780(abre em nova aba)
  8. Brown, A., & Maydeu-Olivares, A. (2011). Item response modeling of forced-choice questionnaires. Educational and Psychological Measurement, 71(3), 460–502. DOI: 10.1177/0013164410375112(abre em nova aba)
  9. Brown, A., & Maydeu-Olivares, A. (2013). How IRT can solve problems of ipsative data in forced-choice questionnaires. Psychological Methods, 18(1), 36–52. DOI: 10.1037/a0030641(abre em nova aba)