Todos os resumos
Ciência · Escolha forçada

Os 12 arquétipos: de Jung às narrativas, com pouca testagem empírica

Os arquétipos de Jung inspiram literatura, terapia e marketing. O conjunto de 12 arquétipos vem de autoras posteriores e foi pouco testado pela pesquisa científica.

De onde vem o modelo

Para Carl Jung, arquétipos eram padrões universais da psique, presentes no que ele chamou de inconsciente coletivo, que aparecem em mitos, sonhos e histórias de diferentes culturas: a Mãe, o Herói, a Sombra, o Velho Sábio (Jung, 1959). Jung não os via como tipos de personalidade e não criou um teste para medi-los.

A lista de 12 arquétipos usada hoje vem principalmente da educadora Carol Pearson, que a partir dos anos 1980 descreveu arquétipos como etapas de uma jornada de desenvolvimento pessoal (Pearson, 1991). Em 2001, Margaret Mark e Pearson aplicaram o modelo à construção de marcas, com arquétipos como o Explorador, o Criador e o Governante (Mark & Pearson, 2001). Boa parte da popularidade atual vem desse uso em branding.

O que a pesquisa diz

A ideia de um inconsciente coletivo herdado não é testável nos moldes da ciência atual e não tem apoio empírico. Existem questionários de arquétipos derivados do trabalho de Pearson, mas estudos independentes de validade são escassos.

Há, porém, pesquisas próximas. Michael Faber e John Mayer (2009) mostraram que pessoas reagem de forma consistente a personagens arquetípicos em filmes e músicas, e que essas preferências se relacionam com traços de personalidade. A psicologia da identidade narrativa estuda como as pessoas organizam a própria vida em histórias, com temas recorrentes como redenção, agência e comunhão, e essa abordagem tem boa base empírica (McAdams, 2001).

Para que serve, então

Os arquétipos funcionam bem como ferramenta de reflexão e linguagem simbólica: ajudam a perguntar que papel você costuma assumir nas suas histórias e qual gostaria de explorar. O risco é tratá-los como descrição científica da personalidade, o que eles não são. Descrições ricas e positivas tendem a parecer certeiras para quase todos (Forer, 1949).

Limitações

O teste do Ethea não foi validado e o modelo dos 12 arquétipos tem pouca testagem empírica. Com 12 categorias em apenas nove blocos de escolha forçada, cada arquétipo aparece três vezes, então as pontuações são grosseiras e empates são comuns; o arquétipo principal pode mudar ao refazer o teste. Leia o resultado como um convite à reflexão, não como uma medida.

Como o Ethea adapta o modelo

A versão do Ethea tem nove blocos de quatro frases; em cada bloco você marca a mais e a menos parecida com você. O resultado mostra o arquétipo mais escolhido, o secundário e o equilíbrio entre quatro grandes grupos de motivação, com os dons e as sombras de cada um. Os textos usam linguagem simbólica de forma assumida, sem prometer precisão científica.

Teste criado por Giovanni Oliveira.

O Ethea não tem vínculo com Carol Pearson, Margaret Mark nem com editoras de questionários de arquétipos.

Referências

Links com DOI levam ao artigo original. Quando não indicamos um DOI, o link abre uma busca no Google Acadêmico.

  1. Jung, C. G. (1959). The Archetypes and the Collective Unconscious (Collected Works, Vol. 9, Part 1). Princeton University Press. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  2. Pearson, C. S. (1991). Awakening the Heroes Within: Twelve Archetypes to Help Us Find Ourselves and Transform Our World. HarperSanFrancisco. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  3. Mark, M., & Pearson, C. S. (2001). The Hero and the Outlaw: Building Extraordinary Brands Through the Power of Archetypes. McGraw-Hill. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  4. Faber, M. A., & Mayer, J. D. (2009). Resonance to archetypes in media: There's some accounting for taste. Journal of Research in Personality, 43(3), 307–322. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  5. McAdams, D. P. (2001). The psychology of life stories. Review of General Psychology, 5(2), 100–122. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  6. Forer, B. R. (1949). The fallacy of personal validation: A classroom demonstration of gullibility. Journal of Abnormal and Social Psychology, 44(1), 118–123. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  7. Hicks, L. E. (1970). Some properties of ipsative, normative, and forced-choice normative measures. Psychological Bulletin, 74(3), 167–184. DOI: 10.1037/h0029780(abre em nova aba)
  8. Brown, A., & Maydeu-Olivares, A. (2011). Item response modeling of forced-choice questionnaires. Educational and Psychological Measurement, 71(3), 460–502. DOI: 10.1177/0013164410375112(abre em nova aba)
  9. Brown, A., & Maydeu-Olivares, A. (2013). How IRT can solve problems of ipsative data in forced-choice questionnaires. Psychological Methods, 18(1), 36–52. DOI: 10.1037/a0030641(abre em nova aba)