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Ciência · Escolha forçada

Os quatro temperamentos: uma ideia histórica, não científica

Sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático são um dos modelos de personalidade mais antigos. São interessantes pela história, mas a teoria que os originou foi abandonada pela ciência.

De onde vem o modelo

A ideia vem da medicina grega. Textos atribuídos a Hipócrates (por volta do século V a.C.) explicavam a saúde pelo equilíbrio de quatro humores: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. No século II, o médico Galeno associou o predomínio de cada humor a um temperamento: sanguíneo (sangue), colérico (bile amarela), melancólico (bile negra) e fleumático (fleuma).

A teoria dos humores dominou a medicina ocidental por mais de mil anos e foi abandonada com o avanço da fisiologia moderna. Os nomes, porém, sobreviveram na linguagem e na filosofia. Kant e, mais tarde, Wundt reorganizaram os quatro temperamentos em duas dimensões: intensidade e velocidade das reações emocionais (Stelmack & Stalikas, 1991).

O que a pesquisa diz

A base biológica original está errada: não há humores corporais que determinem o caráter. O que a psicologia moderna preservou foi a intuição de que há diferenças estáveis na reatividade emocional e na sociabilidade. Hans Eysenck notou que os quatro temperamentos se encaixam nos quadrantes formados por duas dimensões que ele mediu: extroversão e neuroticismo. O sanguíneo seria o extrovertido estável; o colérico, o extrovertido instável; o melancólico, o introvertido instável; e o fleumático, o introvertido estável (Eysenck, 1967).

A pesquisa contemporânea sobre temperamento é outra coisa. Estudos com bebês e crianças, como os de Thomas e Chess (1977), Mary Rothbart e Jerome Kagan (1994), descrevem dimensões de base biológica, como inibição diante do novo, nível de atividade e autorregulação, que aparecem cedo e se relacionam com a personalidade adulta. Esses modelos são dimensionais e não confirmam quatro tipos.

Por que ainda é usado

Os quatro temperamentos são fáceis de lembrar e oferecem uma linguagem simples para falar de ritmo, energia e reação emocional. É assim que o Ethea os usa: como uma porta de entrada leve, ligada a uma tradição histórica, e não como uma medida científica.

Limitações

Não existe validação empírica moderna para um teste de quatro temperamentos como tipos distintos. Descrições amplas tendem a parecer certeiras para quase todos (o chamado efeito Forer: Forer, 1949), então a sensação de que "acertou" não é evidência de validade. O teste do Ethea usa escolha forçada, o que produz um ranking relativo entre os quatro e não diz se você é mais ou menos "colérico" que outra pessoa.

Como o Ethea adapta o modelo

O teste do Ethea tem 20 linhas com quatro palavras, uma por temperamento; você escolhe a mais parecida com você. O resultado mostra o temperamento predominante e o secundário, e os textos fazem a ponte com as dimensões modernas de extroversão e estabilidade emocional. Se você quer uma medida com respaldo científico, recomendamos o teste dos Cinco Grandes Fatores.

Teste criado por Giovanni Oliveira.

Referências

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  1. Stelmack, R. M., & Stalikas, A. (1991). Galen and the humour theory of temperament. Personality and Individual Differences, 12(3), 255–263. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  2. Eysenck, H. J. (1967). The Biological Basis of Personality. Charles C. Thomas. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  3. Thomas, A., & Chess, S. (1977). Temperament and Development. Brunner/Mazel. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  4. Kagan, J. (1994). Galen's Prophecy: Temperament in Human Nature. Basic Books. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  5. Rothbart, M. K. (2007). Temperament, development, and personality. Current Directions in Psychological Science, 16(4), 207–212. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  6. Forer, B. R. (1949). The fallacy of personal validation: A classroom demonstration of gullibility. Journal of Abnormal and Social Psychology, 44(1), 118–123. Buscar no Google Acadêmico(abre em nova aba)
  7. Hicks, L. E. (1970). Some properties of ipsative, normative, and forced-choice normative measures. Psychological Bulletin, 74(3), 167–184. DOI: 10.1037/h0029780(abre em nova aba)
  8. Brown, A., & Maydeu-Olivares, A. (2011). Item response modeling of forced-choice questionnaires. Educational and Psychological Measurement, 71(3), 460–502. DOI: 10.1177/0013164410375112(abre em nova aba)
  9. Brown, A., & Maydeu-Olivares, A. (2013). How IRT can solve problems of ipsative data in forced-choice questionnaires. Psychological Methods, 18(1), 36–52. DOI: 10.1037/a0030641(abre em nova aba)